Site Pessoal de Rogério Batalha

Sobre minha família
e meus amigos




POEMAS
1- verifiquem seus marcapassos. esqueçam suas rígidas marcações teatrais.
terá luísa liberato nascido de uma macumba espacial?
já que só a cada cem anos uma dessas aparece no nosso subúrbio planeta.
seria ela uma espécie de magirus para o céu? hall do inferno?
ou seria ela,apenas, uma suzie amulatada, talvez, um cetauro-fêmea?
-muito prazer, eu sou modelo-manequim-artista-de-tv. você?
-poeta de merda, encantado...


2 - p/ Márcia

euteamoporquevocêé

minha marciana
meu marulho
meu maracujeiro
meu marujo
meu mar inteiro

euteamoporquevocêé

minha margem
meu marcapasso
minha marmelada
meu marco

euteamoporquevocêé

minha mariposa
meu marceneiro
meu marisco
meu vício
meu mar inteiro.


3 - Entre o cimento
E o sangue
O mangue

Em pleno mar aberto
Uma lasca
Do deserto

Elástica e cabotina
Despe-se
A menina.

Enquanto o escuro
(que há em tudo)
Sai

E a última gosma
(do sabugo)
Esvai.


4 - não, a carapuça não me cabe
entre o esquema e o uso
o lusco-fusco e a cidade
crestado estou
pelas chamas da curiosidade
não, nenhum sol metafísico
realmente importa
o que há é o sal
do teu umbigo
e a mesa posta
e a luz
e o pus
e omangue
(do teu sangue)
não, o que realmente há
é o petróleo dos seus olhos
e o aroma subversivo de bangu
(no seu cu)
não,nenhum sol metafísico
possui sanha e abismo
não está à espera
não indaga,não medra
que graça tem se não se rebela?


5- negrorazul
do cós
ao cú

rapsodo
de nós
todos

exposto
(cara a cara)
entre a pelúcia
e a piaçava

costurar
mirra
e merda
é o q mais me interessa.


6 - dentro de um antro externo
o pobre-diabo
é todo acaso. reclusão.
fodido (no pior sentido)
sem língua ou lira
este animal é só narinas. trapos.
sangüíneo (no pior sentido)
teso (no pior sentido)
bandido
dentro de um antro patético
(incorporado pelo encosto
da exclusão)
é esterco preto
(só não germina a si mesmo).
pois é só serventia
para a violência do Estado ou da burguesia.
e estes, como a fera de Dante,
sentem até mais fome
depois que comem.

7 - método não é regra
fedor não é merda
finalidade:
dois caules, nenhuma pétala.

e tudo pode ser flor
menos
o que não for
clarabóia
no amor

onde
paira
esquizofrênico e liberado
o poeta furta-cor

cá não há história futura!

torcer é não fazer!
viver é não poupar!
(deixar-se pelo sol pigmentar)
até por fim
entrares na mira
ou então de antemão
tornar-se
creolina

ou senão
cantar um samba
descrente
de todos os caminhos do desdouro
(ainda que por hora nau sem piloto)

não arredar o pé
até ouvir sair
(DENTRO DE SI)
um eco cavernoso:
jamais possuirás ferrolhos!
LETRAS
1 - Malícia
(Moacyr Luz e Rogério Batalha)

Me tenha como vício
Aceite os meus de bom grado
Que o seu coração palpite, mire,
dispare sobressaltos.
Não quero nem saber
da meia-água dos teus fados
Quero o teu choro, depois o riso
Malícia de asfalto
E enquanto isso
Vou te mostrando
(desde o início)
Meu jeito hábil
Me tenha.



2 - Baluarte
(Moacyr Luz e Rogério Batalha)

Estranhamente me desejas
Em outras bocas e mal sabes
Quando advogas meus desejos
E consomes minha mocidade
Furtando assim meus próprios beijos
Em bocas que não me cabem
Ainda que mal saibas do meu apreço
Para mim tu és um baluarte.

E se por hora impera
O batismo dessa pedra
O tempo é uma fogueira
Que a tudo subtrai
Decerto toda tristeza
Um dia esvai.


3 - Bem cotado
(Dú Basconça e Rogério Batalha)

Você forjou, você riu, você mentiu, você brincou
Isso significa, amor, que você não tem interior
Quando na quadra da Portela a velha guarda subiu
Só você não entendeu que um partido-alto
é um batuque sólido de adeus

Você me usou e descurtiu, depois sumiu, dispersou
Você não justifica, amor, o bem de quem te criou
São vinte e dois anos de praia e eu já sei
que esse filme é assim
O mocinho sofre, o bandido foge
e a vilã sai bem no fim

Foi minha escola querida
quem me ajudou a suportar
Você só deixou na avenida
a desilusão pr' eu carregar
no peito
Você zombou e feriu, você fingiu, você jogou
Isso justifica, amor, você não tem interior
Quando na quadra da Portela a velha guarda subiu
Só você não entendeu que um partido-alto
é um batuque sólido de adeus

Você me usou, me iludiu, depois sorriu e decretou
Que esse meu discurso, amor, é choro de perdedor
Com vinte e dois anos de escola
eu já sei que o desfile é assim
O passista sofre, o mestre sala morre e a destaque nem aí

Foi minha escola querida quem me ajudou a suportar
Você só deixou na avenida a desilusão pr' eu carregar
E hoje não sou mais um Zé, sinta meu cheiro de alecrim
Ando bem cotado
Se você duvida se informe sobre mim.


4 - Decúbito dorsal
(Rogério Lopes e Rogério Batalha)

(Dá mole pra você vê).
Na cabeça, no invertido e no cercado
Apostei no seu gingado
Acreditei que o negócio ia dar pé
Um apontador me bateu o recado
Que o palpite era exato
E eu podia levar fé
Fui correndo pra Edgar Romero
Pra tirar uma beca zero
Só pra te impressionar
E logo aberto o crediário
Eu malandro de Gramacho
Ainda tive que escutar
(de uma testemunha ocular)
Que ontem foste pega na madrugada
Embebida de cachaça
Em decúbito dorsal
E que toda aquela delicatesse
Era grupo de vedete
Descolada em mictório da Central
E eu que já fui até larápio
Pagodeiro mui versátil
Em partido-alto, coisa e tal
Apostei no jogo errado
E o destino, esse ingrato
Me mandou essa real
-Malandro, não dá flor em milharal.


5 - Aliás
(Paulinho Lemos e Rogério Batalha)

Então escapar do absurdo vendaval
Como meliante ou retirante nau
Depois juntar
os farelos da ilusão,
os apelos do coração
E se atirar novamente
ao mar...

Se o medo não tem esperança
No fundo, quem é que pode mais?
Se De La Mancha
bordou com sua lança
devaneios imortais...

É, quem foi que disse
que de nada adianta
debater-se sobre mares irreais?
Se afinal de contas
Desvarios à boca
Já alimentaram um cais, aliás.


6 - A medida do sal
(Paulinho Lemos e Rogério Batalha)

Aprendi com a boemia
Que pode ser fatal
Acreditar na fantasia
Acabado o carnaval

E que a medida, menina
É peça fundamental
No palco, no bordado ou na vida
Há mão certa para o sal

Marinheiro de primeira
Foi brincar lá no mar-alto
Até hoje não voltou
Deve estar envergonhado

Não levei as mãos ao céu
Quando tudo terminou
Sabia até onde ia
A jurisdição do nosso amor

Eu aprendi com a boemia
O tempo certo do andor
Muita calma nessa hora
Haja vista o Nestor
Que pôs todas as fichas na folia
E até hoje não voltou.


7 - Caso perdido
(Kinho e Rogério Batalha)

Seja você a flor que for
Não te darei meu coração
Desde que a dor marejou
Não encontrei mais afeição
A paixão não é laço de fita
Embora se faça bonita
No fundo é só desvão.
Hoje sei que a vida
É feita de despedida
Saudade e ingratidão
Jogarei n’água
Todas as núpcias passadas
Viverei com mais razão.

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CRÍTICAS
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Rogério Batalha
Autoria de Oswaldo Martins
09 de novembro de 2006
Rogério Batalha é poeta. Desconhecido, vem editando seus livros quase que marginalmente. Madureira, Cascadura e Penha (mas não só) são os territórios por onde circula. Pertence, com mais propriedade diria que pertenceria, como quer certa inteligência nacional, a uma das metades da cidade partida. Tem lançados e postos em circulação dois livros: Melaço e Anfíbios. No primeiro, Batalha escreve um belo poema, marcado pelo impacto da chacina de Vigário Geral e pelo que tal chacina provocou, com o surgimento do movimento Afroreggae.

“Sagacidade é saber farejar delícias”. Emblemático e diferenciador, o verso, com que abre o poema, serve de mote para a constituição das diversas diferenças que anoto em sua escrita. Ao contrário do que propõe a partitiva inteligência, acerca da divisão da cidade, o que se verifica na poesia de Batalha se constrói a partir do amálgama das diversidades, de modo surpreendente.

Se a visão da cidade partida cinde a percepção do olhar sobre as manifestações culturais do espaço urbano; se, no além túnel, a arte recebe a chancela do popular; se a inteligência brasileira tem a necessidade de “gostar” de tal arte, muita coisa se perde e em várias sentidos. Deste logo, o rótulo arte popular, arte do subúrbio, arte das favelas esconde uma dignificação exatamente daquilo que não é popular e empurra o julgamento do popular para uma aceitação acrítica. É inaceitável que tal aceitação acrítica se transforme em moeda de troca, ou, com maior crueldade ainda, em uma estética própria, localista, como se um redivivo regionalismo (re) fundasse a arte como expressão sociológica, como arte de combate – ou coisa que o valha –, distanciada das questões estéticas. São diversos os livros e também as músicas que simplesmente se exaltam por esta expressão localista. Não tem sentido, por exemplo, exaltar toda e qualquer arte naïf por ser arte naïf. Há uma grande arte naïf e há também uma horrorosa arte naïf. Há os belos quadros de Nelson Sargento e há aqueles dos retratistas de rua. Não basta, portanto, pertencer ao conceito popular/naïf para que a manifestação artística se torne aceitável.

Batalha tem a vantagem de saber disto. Sua poesia, embora fortemente enraizada, busca outra percepção, outro diálogo. Não se aceita como representante estanque do localismo, nem do ferrolho – imposto pelos que “gostam” da arte popular – de uma poesia frágil, porém bacana. Senão, leia-se em Melaço:

Os cambaus, esse mundaréu é meu!
Perebento e muquirana é a mãe!
Eu não sou do seu naipe!
Eu tenho gogó mermão!
Anchova é o caralho!
Eu sou é enchova de dentes afiados!

Sutilezas. Cambaus – peça triangular que se põe no pescoço das cabras para evitar que pulem as cercas. Anchova/enchova – a cerca lingüística ultrapassada pela significação mínima ao nível da expressão. A relativa abertura da medial /ã/ reescrita pela nasalização entre dentes, realiza, com uma concisão de miniaturista, o que o poema anuncia no plano semântico – a quebra das fronteiras. E a ela acrescenta não só a auto-noemação, enchova, como também a rejeição à nomeação que, de fora, tentam lhe impor, anchova.

A partir desta dupla significação, o poeta mostra os dentes afiados, se acrescenta em força e qualidade e requer para si a vasta possibilidade da sagacidade:

Podre podre
Presidiário
Podre podre
Crucificado
Podre podre
Amortalhado
Podre podre
Desumanizado
Podre podre
Torturado
Podre podre
Entulhado
Podre podre
Desovado
E mesmo assim, Afroreggae.

Atentem para o “e mesmo assim”.




Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.

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perfil
DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MPB

ROGÉRIO BATALHA


Nome artístico: Rogério Batalha
Nome verdadeiro: Rogério Batalha da Silva
Data de nascimento: 30/11/1969
Local de nascimento: Rio de Janeiro, RJ


Dados biográficos

Poeta. Letrista. Professor de Literatura.

Dados artísticos

Em 1998, publicou seu primeiro livro, "Malícia", com contracapa assinada por Waly Salomão.

No ano seguinte, lançou o livro "Bazar Barato", com texto de contracapa assinado por Antonio Cícero.

Em 2000, foi convidado para participar do recital poético de Waly Salomão "Esta noite se improvisa", desenvolvido nas Lonas Culturais João Bosco e Hermeto Pascoal, ao lado de Jorge Salomão, Afroreggae e outros.

Em 2002, lançou mais um livro de poesia, "Melaço", prefaciado por Ricardo Oiticica.

No ano seguinte, proferiu palestra sobre o livro "Melaço" na I Bienal do Livro da Cidade de Nova Iguaçu. Também em 2003, apresentou-se no projeto "Poesia simplesmente", realizado no teatro Gláucio Gil.

Em 2004, juntamente com Alexandre Faria e Oswaldo Martins, participou de um debate sobre a poética de Ferreira Gullar, à qual esteve presente ao evento realizado na Lona Cultural Terra.

Participou, em 2005, de debate sobre poética e contemporaneidade realizado na Universidade Estácio de Sá (RJ), ao lado de Francisco Bosco, Luiz Fernando Medeiros de Carvalho e Oswaldo Martins. Nesse mesmo ano, lançou o livro "Anfíbio" (Armazém Digital), contendo poesias musicadas por Moacyr Luz ("Malícia" e "Baluarte") e Paulinho Lêmos ("Aliás" e "Coração estopim"), as duas últimas registradas pelo parceiro no CD "Paulinho Lêmos" (New Mood Jazz, 2005).

Obras gravadas

Aliás;(c/ Paulinho Lêmos)
Coração estopim;(c/ Paulinho Lêmos)

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Um bom programa
Por uma poesia tesuda
Paudurecência.
Rogério Batalha, poeta; batalha poeta!
Rogério Batalha, poeta; batalha poeta!
Rogério Batalha, poeta; batalha poeta!
Rogério Batalha, poeta; batalha poeta!
Vá a cata de...
Vá a caça de...

Waly Salomão – 1998.


Este poeta eu queria que vocês tomassem cuidado!
Ele é bom e por isso é perigoso!
Ele deveria andar com uma placa indicando
Danger: o perigo.

Waly Salomão – 2000.


É excitante a sensação de ter nas mãos um novo livro de Rogério Batalha. Penetro no Bazar Barato em que se expõe o Rio inacreditavelmente familiar e assombroso, concreto e lírico, lúbrico e áspero, solar e sombrio, estagnado e latejante, delicado e sórdido, bruto e sensual, ordinário e fabuloso que Rogério constrói como quem monta um vitral, com cacos impregnados de loucura, memória, amor, imaginação e tesão.
Confundem-se os fluidos vitais do meu corpo com os desse Rio realimaginário de megalópole do terceiro mundo em final de milênio, onde o cosmo está em carne viva. Exulto. Graças ao poeta, alguma coisa já não é a mesma na cidade em que vivo.

Antonio Cícero – 1999.

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CRITICA>


O melaço de quando cana. O melaço enquanto sangue. O mel, enfim, do bagaço. É esse desvio semântico – de cana, mel e bagaço – que deixa Batalha de fora da lira edulcorada que se lê por aí.
No porta-mala do poeta há presunto, no porta-luvas do poeta há presença, no seu porta-chave não há saída. Porque a coisa começa em Vigário Geral e acaba em Vaz Lobo, onde o poeta conhece, respectivamente, a banda Afroreggae, surgida da famosa chacina, e a pombagiruda Dezessete, que o trocou por “um policial tipo pulseira-de-prata-malvadão” que adora dar porrada em pederastas, piranha-assumida, ninfomaníacas, travestis, bicha-assumida, prostituta-tipo-praça-Mauá, isto é, odiava Copacabana.
Pra quem vem do posto 6, como eu, é tomar a amarela via vermelha, logo depois de onde a favela derreteu, em seguida um valium via oral, e finalmente a Automóvel Clube, como quem procura “a quarta opção do semáforo”, numa região delimitada pelos cemitérios de Ira já e Inhaúma. O poeta bem que avisou: “Cerol, para dinamitar tudo que for viga realista/ Cerol, para erguer novas pontes, pontas, poesias”. Depois que o viaduto derreteu, uma alternativa é a Suburbana, rebatizada D. Hélder Câmara sob protestos da Universal, que tem seu Vaticano bem na beira dessa pista. Pois bem: foi em Vaz Lobo que conheci Rogério Batalha, aluno da UniverCidade (cuidado revisores), num curso sobre a dialética da malandragem em que terminei aluno do aluno. (...)
É uma poesia desconfiada de todo o poder, inclusive do da palavra, o que o põe na contramão das tendências formalistas: “mesmo que eu escreva/ a palavra flor/ cadê a haste?/ cadê o cheiro?/ cadê a cor?” (...)
O poeta pertence a um time que toma de assalto a literatura bem-pensante dos inocentes do Leblon:

Cigarros, cigarras
Vídeos, vinhos
Noite de autógrafo ou verão?
Imagina, a vida que eu queria
Livraria o Leblon.


Relíquias, revistas
Amigos de amídalas
Bafo na nuca da solidão
Eu é que não faço
As bainhas do coração.


A poética pós-túnel, para quem já descobriu o romance de Paulo Lins, oriundo da Cidade de Deus, e a prosa curta de Mauro Pinheiro, ganha com Rogério Batalha mais luz depois do túnel.

Ricardo Oiticica – 2001.


CRÍTICA 2>

Duas águas e uma pororoca


O poeta contemporâneo tem que ser perigoso como Dante foi perigoso: uma força respeitável frente às demais forças sociais. Do contrário, no entontecedor movimento rumo-Norte a que assistimos em nossos dias, a poesia seria qualquer coisa de marginal, menina chorona ou risonha, abandonada à beira de uma auto-estrada de tráfego intenso. O poema precisa funcionar como qualquer outra coisa. E para que possa fazê-lo, para que a poesia possa voltar a ser – como sem dúvida já o foi e potencialmente ainda o é – o mais eficaz, o mais perene e o mais exato dos meios de comunicação, é necessário, em suma, que o poema viva em função do tempo, do espaço e do homem – contra ou a favor, nunca indiferente. (Mário Faustino)

Rogério Batalha é um poeta perigoso. Mas não o tema o leitor; pelo contrário, comemoremos. Depois de Malícia, Bazar Barato e Melaço, Anfíbio põe mais força no moto-contínuo desta antiga e inesgotável motriz de sonhos e vidas, a poesia. Não o tema, mas cuidado, leitor! Há muito mais do que vidas duplas ou duplos sentidos neste livro.
Não queira encontrar, em Anfíbio, os sapos. Aqui estamos mais para os caranguejos cabralinos. Só que, criados no mangue carioca, driblam a severinidade da morte-vida e a aspereza da forma rígida: continuam farejando delícias como quem burla a própria ambigüidade vital (manipula a toalha xadrez do destino), ora num pé-sujo de Madureira, ora numa aula de literatura.
A divisão interna que o leitor encontrará em Anfíbio também seria similar à do poeta pernambucano. São duas águas: a primeira se quer visualmente lida, as posições do verso, as fontes tipográficas reclamam um significado plástico ao poema; experimente ler, por exemplo, os versos deslocados de “A flor inusitada”: finalidade paira descrente. Esta também é a água da reflexão metapoética e da intertextualidade literária, rasuras que Batalha imprime em si mesmo e em outros poetas perigosos: estão lá a “Machadiana”, a “Oswaldiana”, ou a “Antena premonitória”, que também podia se chamar poundiana (borogodó / ao máximo grau possível).
A segunda água, fluviante, flutual, requer um complemento auditivo: harmonias e melodias, tão maliciosas quanto os poemas, que os parceiros (Paulinho Lêmos, Moacyr Luz, Kinho, Dú Basconça) t(r)ocaram com Batalha. Por esta audição temo que o leitor ainda espere um pouco: por enquanto só há CD demo (o medo anagrama do demo ?), guardando pérolas como “Malícia” ou “Aliás”. Paciência! Sabemos que, a cada década, as coisas ficam menos fáceis nessa auto-estrada de tráfego intenso rumo-Norte.
E é justamente por isso por não ser nada fácil colocar em circulação música e poesia (das boas), por ser quase impossível tirar a poesia das margens dessa estrada, da rapinagem do marketing, ou das pequenas castas inertes (Imagina, a vida que eu queria / Livraria o Leblon) é exatamente por isso que Rogério Batalha é um poeta perigoso: em função do nosso tempo, do nosso espaço, da nossa vida, escreve seus poemas, fabrica seus livros, inventa a Bizu, se mete em recitais pelas águas e lamas da cidade (Se a minha cidade já não é / Um Rio de águas cristalinas / Quem há de negar / Que ela ainda é a matriz da poesia). Enfim, vai se safando (anfíbio / e rasteiro / demiurgo / de si mesmo / da vida / os nervos) e engrossando o coro daqueles que insistem para nós, leitores e brasileiros, que há uma saída poética: um discurso que é bárbaro e nosso, macunaímico e malandro; o discurso do entre-lugar; de quem sabe que é melhor fazer uma canção [do subversivo ato de / cantar / (dar as costas para o / real luar) / morar / no entrelugar].
Finalmente, é neste entre-lugar que o novo livro de Rogério nos coloca: não só no equívoco limite entre o que é poesia e o que é letra de música, mas também nas fronteiras de um espaço híbrido entre o risco de ler Quixote (Se De La Mancha bordou com sua lança / Devaneios imortais) e o risco de ouvir no rádio do motel algum hit biodegradável (tipo Rosana – “Como uma deusa”); ou entre a sintaxe do estranhamento (jamais descobrirá / esta grita: / turba enfurecida) e o lugar-comum de novela da Globo (muita calma nesta hora).
Ao anunciar seu (entre)lugar, Anfíbio deixa para trás a dicotomia das duas águas que nos orientava a leitura. Apesar de suas duas partes, não se deixe iludir, leitor, o livro inteiro é ruidosa pororoca: foz das letras / de minha parca alma (duas enseadas) / onde a pororoca de minha vida / dispara. Para com vida que dispara, com
suas elevações repentinas e seus banzeiros, Rogério nos impede de ser indiferentes.

Alexandre Faria


panorama da palavra
texto território
universidade estácio de sá


musicas com paulinho lemos - espanha
universidade estacio de sá





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